FAMÍLIA FRANCISCANA PORTUGUESA

São Francisco de Assis

 

A história dos homens está cheia de movimentos e personagens que a marcaram, homens que alimentaram dentro de si sonhos e ideais. Entre estes movimentos que nela deixaram rasto, conta-se o movimento franciscano, «uma intuição que surgiu no espírito e no coração de um homem» (T. Desbonnets), Francisco de Assis. Um jovem que não se acomodou à mediocridade da sua época, mas ele próprio soube ser contraste. Um "revolucionário" e iniciador de uma nova experiência religiosa que marcou a história de maneira impressionante, uma vida cheia de sobressaltos, de interrupções, rumo à realização de um ideal que lentamente se vai aclarando e concretizando, uma experiência pessoal onde rupturas e descobertas se sucedem até à identificação com o Evangelho tornando-se o novo evangelista do séc. XIII, e, quem sabe?, de todos os séculos. «S. Francisco de Assis é desses homens de quem a Humanidade sempre se sentirá orgulhosa. Suas qualidades forçam a simpatia; seus defeitos, se os tem, são encantadores; sua santidade nada tem de esotérico, efeminado ou temível; seus dons naturais suscitam geral admiração; seus ensinamentos exalam tal frescura, tal poesia e serenidade, que, neles, mesmo os espíritos mais embotados, podem encontrar razões para amar a vida e crer na bondade divina» (O. Englebert).

 

 

1. Juventude e conversão

 

Casa onde Francisco nasceu, Assis.

 

Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, nasceu em Assis, Itália em 1182 ou 1182. Era filho do comerciante italiano Pietro di Bernadone dei Moriconi e sua esposa Pica Bourlemont.


Os pais de Francisco faziam parte da burguesia da cidade de Assis, e graças a negócios bem-sucedidos na Provença, França, conquistaram riqueza e bem-estar. Na ausência do pai, em viagem à França, sua mãe o batizou com o nome de Giovanni. A origem de seu nome Francesco (Francisco) é incerta: fruto do seu encanto por uma viagem à França, cativado pela vida francesa, sua música, sua poesia e seu povo; uma homenagem ao país natal de sua esposa, embora não haja provas de sua naturalidade francesa; o nome foi dado por seu gosto pela língua francesa, que perdurou por toda a vida de Francisco e era em sua época a linguagem por excelência da literatura cavaleiresca e da expressão amorosa.

 

 

2. Ambiente social e político

 

Após as invasões dos Bárbaros estabelece-se na Europa o regime feudal com uma sociedade profundamente dividida, hierarquizada por privilégios e de enormes contrastes sociais, com duas grandes classes de pessoas: os maiores e os minores.


Com a morte de Frederico Barba Roxa (1183), sucede-lhe no trono do Sacro Império Romano Germânico Henrique IV (1183-1196) que procura retirar as regalias concedidas, forçadamente, às cidades da Lombardia. Assis também foi "atingida". Como consequência, acentuaram-se as lutas na região. Em 1196 morre Henrique IV e um ano depois sobe ao trono pontifício Inocêncio III. O Papa esforçou-se por alargar o seu domínio às cidades da Itália, os Estados Pontifícios. Assis está naturalmente abrangida. Conrado de Irslingen (duque imperial de Espoleto e Conde de Assis) desloca-se a Narni para resignar ao ducado em favor do Papa. Os plebeus (minores) da cidade de Assis tomam de assalto a fortaleza germânica (Roca Maior), destruindo-a. Os assisienses, para defender a cidade de ulteriores ataques, edificaram uma forte muralha onde Francisco trabalhou denodadamente. A burguesia endinheirada de Assis subleva-se. Os minores, pela primeira vez, tomaram consciência da sua força e procuraram combater o poder estrangeiro. Imediatamente se voltaram para a luta contra os inimigos internos - os nobres -, que moravam em palácios fortificados e viviam regaladamente da exploração exercida sobre o povo. Assim se instalou em Assis uma verdadeira guerra civil: os plebeus contra os nobres.


Perante esta situação, os nobres pedem auxílio à velha cidade de Perúsia, rival de há muitos anos, com a promessa de lhes reconhecer a soberania sobre Assis e assim vendem a sua independência para assegurar os privilégios. Perúsia estava no apogeu e aceitou a proposta. Os senhores de Perúsia pegam em armas e dirigem-se para Assis. Os plebeus de Assis, juntamente com alguns nobres que queriam salvar a honra da sua cidade, organizaram-se e partiram ao encontro das tropas de Perúsia. Francisco estava entre os plebeus da sua cidade. Já lutara contra o Império Germânico e depois contra os nobres da sua cidade. Agora alista-se no exército para defender Assis do assalto de Perúsia. As tropas encontram-se na Ponte de S. João, no ano de 1202 (batalha de Colestrada). Assis é derrotada e fica sob o domínio de Perúsia. Muitos dos seus cidadãos são feitos prisioneiros, entre eles Francisco.

 

 

3. Os ideais de Francisco jovem

 

Ser cavaleiro!... Eis um dos grandes ideais dos jovens do século XIII.


A cavalaria era a nobreza da época e não estava reservada exclusivamente aos filhos da aristocracia. Os filhos da grande burguesia tinham também acesso a ela desde que tivessem condições para adquirir o equipamento necessário e fossem considerados dignos de receber a iniciação. Tratava-se de colocar a espada ao serviço de Deus e dos oprimidos.


Ao tempo de Francisco este ideal de cavalaria (armaduras, torneios, façanhas militares que cativassem os olhares de uma mulher!) fervilhava por toda a Europa reforçado pelo entusiasmo das Cruzadas na Terra Santa, cultivando as virtudes da aventura, delicadeza, cortesia, o canto da natureza e a defesa da dama.


No fim do século XII e início do XIII surgem novos valores e uma nova cultura que se universaliza: a cultura trovadoresca. A partir da Provença, esta cultura difunde-se por todos os países onde florescia a cavalaria. Os ideais da cavalaria, surgidos neste período e desenvolvidos nas cortes de amor provençais, são propagados pelos trovadores com suas canções líricas de onde transbordam os ideais de "amor" (fin'amours), a "alegria" e "cortesia". A dimensão festiva da vida e a alegria são características desta época e transparecem essencialmente no ideal do trovador. Os mais ilustres trovadores da Provença e da Itália vagueiam da corte em corte, de cidade em cidade, de praça em praça. Por toda a parte se ouvem as "chansons de geste" provençais que cantam as façanhas do "Rei Artur" e dos "Cavaleiros da Távola Redonda".


A animação da festa e da vida das cidades do século XII e XIII tem o coração nas praças comunais. Francisco, como os jovens do seu tempo, absorveu esta cultura trovadoresca e podemos mesmo dizer que ela moldou a sua personalidade. Francisco nasceu e viveu num "século de trovadores e jograis", "o século do amor cortês"; carregou consigo a cultura trovadoresca, por ele cristianizada e "franciscanizada". Ao estilo dos jograis, o "jogral de Deus", com imaginação e criatividade, percorreu os povoados pregando a penitência. Assimilou profundamente os ideais dos jovens do seu tempo na Itália. Dotado de grande capacidade de galvanizar e arrastar, era um jovem alegre, generoso, poeta e amante da natureza. Gostava de vestir bem, de festas, banquetes e serenatas. Era admirado por todos e aclamado como «rei da festa». Jovem de grande imaginação, seduzido pelo risco e aventura, nutria a paixão da glória e o ideal de cavalaria. Conhecia a epopeia francesa, seja pelo que leu das canções de gesta seja pelo que ouviu nos recitais dos trovadores nas praças públicas. Era suficientemente instruído e arguto para vir a ser famoso comerciante e para alimentar a ambição de se tornar cavaleiro. Efectivamente, «a cavalaria foi a sua primeira vocação» (A. Masseron). Ambicionava a glória nos campos de batalha, mas conhecia também as virtudes deste ideal cavaleiresco a que aspirava: a coragem, a lealdade, a fidelidade e a cortesia. E estas encontrava-as no seu temperamento nobre e generoso. Era por natureza polido e afável, intrépido e liberal para com os pobres.


É o ideal da cavalaria e a ânsia de renome que o levam a partir com os populares de Assis para a guerra contra Perúsia. Não obstante todas estas características a seu favor, o início da sua carreira das armas foi um desastre. Na batalha de Ponte San Giovanni, em 1202, dá-se o primeiro insucesso da sua vida: foi feito prisioneiro e viveu no cativeiro de Perúsia. Mas aquele cárcere perusiano não era a sepultura da sua glória. Abandonava-se a uma alegria incontível, o que causava simpatia e fastio aos companheiros de desventura. E explicava assim a razão: «um dia serei venerado como um santo em todo o mundo!» (2C 4, 8).


Depois de um ano de cativeiro, regressa a Assis, exausto e minado pela doença, mas diferente. É o início da mudança: «Prostrado por longa enfermidade (...) começou a entreter no pensamento coisas bem distintas daquelas a que se acostumara» (1C 3, 8-10). «Durante a convalescença, nada do que anteriormente o alegrava o atrai: nada do que via... conseguia deleitá-lo minimamente. Surpreendia-se ele próprio com tão repentina mudança e tinha por néscios os que prendiam o coração a tais coisas» (1C 3, 14-15). «A partir desse dia, começou a ter-se em menos conta e a desprezar o que antes tinha admirado e amado» (1C 4, 1-2). Atento à voz de Deus, Francisco começa a manifestar a transformação em atitudes concretas: «torna-se ainda mais compassivo para com os necessitados» (2C 5, 3-4; cf. 1C 17).


Retoma a saúde. Atravessa uma grande crise. Medita na vanidade dos prazeres terrenos e como são efémeros os bens a que prendeu o coração. É preciso ser louco para os não desprezar. Mas o desejo da glória alucina-o: «Assim é que Francisco, ignorando os desígnios de Deus, persiste em escapar da sua mão... Acaricia pensamentos terrenos e sonha ainda com grandes feitos, fascinado pelas glórias vãs deste mundo» (1C 4, 8-9).


Inocêncio III confia o seu exército a um célebre e valoroso conde Gualtier de Briene. As vitórias sucedem-se. Seu nome e façanhas estendem-se por toda a Itália. O ideal da reconquista dos Estados Pontifícios ganha volume universal. Francisco está curado da sua longa enfermidade. A juventude de Assis já o tinha "consagrado" Rei. Estas circunstâncias reavivam nele, uma vez mais, o "sonho de cavaleiro". O entusiasmo por Gualtier de Briene invade a juventude de Assis. Um nobre da cidade organiza uma expedição para ir ao seu encontro em Apúlia onde combatia em favor do Papa a fim de restabelecer a autoridade pontifícia nos estados do Papado. Francisco, entusiasmado, alista-se nessa expedição. No dia aprazado arma-se magnificamente e parte pela estrada que conduz a Folinho alimentando o sonho de ser armado cavaleiro no campo de batalha, no ano de 1205.

 

 

4. Fases da conversão de Francisco

 

Francisco de Assis «foi um grande santo, permanecendo, todavia, autenticamente homem» (K. Esser). Como homem foi crescendo e amadurecendo ao longo de etapas sucessivas, de descoberta em descoberta. Aprendeu na escola da vida e nos acontecimentos a descobrir a voz de Deus que cada dia prometia coisas maiores.

 

4.1. Francisco muda de "senhor": o sonho de Espoleto

 

Os pensamentos terrenos e o fascínio das glórias do mundo invadem-lhe de novo o coração. Arma-se cavaleiro e parte para a Apúlia. Na primeira etapa, em Espoleto, «sonha ver a casa cheia de armas» (1C 5, 3 e 5; cf. 2C 6). Ainda atónico e maravilhado com o sonho, ouve dizer-lhe que todas as armas são para ele e seus soldados. Interpreta-o como bom presságio e garantia de êxito. Mas uma voz misteriosa interroga-o sobre o seu projecto e pergunta-lhe se é o senhor ou o servo que melhor o pode recompensar. À sua resposta recebe desta voz "ordens" para voltar a Assis: «Volta à terra que te viu nascer, que eu farei se cumpra espiritualmente a visão que tiveste» (2C 6, 12-13).


Jovem de decisões como era, obedece. «Já mudado espiritualmente, mas sem nada deixar transparecer aos de fora» (1C 6, 4), renuncia à ideia de continuar para a Apúlia. Os seus sonhos e o fascínio da glória do mundo saem mais uma vez frustrados.


Regressa a Assis e desorienta a opinião pública. Justifica-se convertendo a empresa das armas numa sublimação de amor. E àqueles que surpreendia com sua invulgar alegria «respondia que havia de ser ainda um grande príncipe» (2C 6, 17-18). Começou então nele uma grande transformação: muda da empresa das armas em amor ao serviço de Cristo.


Depois do regresso a Assis é alegre e seguro. Os sonhos trouxeram-lhe certezas: o mundo paterno dos negócios e do dinheiro não é para ele: odeia-o. O mundo do prazer, dos banquetes e serenatas com os amigos já não o entusiasma nem quer saber deles pois causam-lhe fastio. À medida que vai cortando as amarras que o prendem ao passado abre-se ao imprevisto de Deus que o faz descobrir um novo caminho. A cada nova descoberta Deus parece exigir novas rupturas. Descoberta-ruptura-descoberta é a pedagogia usada por Deus para levar Francisco, progressivamente, à descoberta da vocação apostólica.


Busca cada vez mais a solidão nas grutas e capelas abandonadas e vive um período de forte luta interior. Sente que se enganou e quer seguir o "senhor". Mas que exige este "senhor"? Obedecer não é difícil: é a lei do soldado. Mas quais são as ordens? Para as descobrir são ainda necessárias novas rupturas.


Numa tarde de versão de 1205, a última daquela fase da sua vida, depois da ceia com os amigos, «Francisco, pouco a pouco, vai-se distanciando dos companheiros. Interiormente surdo àquelas vozes, canta em seu coração os louvores do Senhor» (2C 7, 13-14). Não sabia bem onde ir, mas sabia bem onde seguramente não queria voltar. Tinha já percorrido um longo caminho: a renúncia ao dinheiro, à glória do mundo e admiração dos amigos. É, porém, necessário ir mais além.


Em seu coração cresce o interesse pelos pobres e indigentes a quem socorria generosamente. Prossegue na estrada da perfeição pela penitência e busca da solidão. Dá um passo em frente no sentido de se identificar com os pobres. Experimenta o que é viver vestido de andrajos e implorar a caridade pública. Fê-lo por ocasião de uma peregrinação a Roma. À porta da basílica de S. Pedro troca as suas vestes pelos farrapos de um pobre e senta-se no meio dos mendigos a pedir esmola (cf. 2C 8). Agora tinha experiência da pobreza real que é ao mesmo tempo humilhação, inferioridade, falta de promoção pública e, por vezes, degeneração física e moral.


Regressa a Assis. Continua, pela oração e penitência, a pedir a Deus que lhe mostre a Sua vontade. E vai receber duas respostas: uma em S. Damião, que o ensinará a preparar para a missão, e outra, a definitiva, em Santa Maria dos Anjos. Mas o caminho a percorrer é ainda árduo.

 

4.2. A experiência do leproso

 

Francisco continua a abrir o coração a Deus e a crescer na identificação com os mais pobres e marginalizados. As experiências anteriores prepararam-no para a primeira etapa, a descoberta do homem irmão, primeiro nos indigentes e agora de forma mais profunda nos leprosos, a primeira vitória sobre si próprio, sobre o seu "eu", toda ela cavaleiresca.


Eis que a ocasião surge. Um dia cavalgando na planície junto de Assis encontrou um leproso. A natureza delicada de Francisco revolvia-se diante daquele espectáculo das carnes putrefactas: «Ficou de veras repugnado e espavorido mas, para não faltar à palavra dada, saltou da montada e correu a beijá-lo. Ao estender-lhe o leproso a mão à espera de esmola, Francisco beijou-a e deu-lhe dinheiro» (2C 9, 19-22; cf. 1C 17). Para uma alma medíocre falar com este miserável, consolá-lo e dar-lhe esmola seria um triunfo suficiente; o sublime é beijá-lo. Este era o momento de dar a Cristo a prova decisiva de disponibilidade para conhecer a Sua vontade.


Pouco depois quis repetir a experiência indo ao encontro dos leprosos nas leprosarias para onde se transferiu. A partir do sonho de Espoleto, que operou uma mudança no seu coração, fez a experiência do que era "pedir esmola por amor de Deus". No leproso descobre o homem irmão. É um momento decisivo, como afirmará no Testamento, e que marcou a vitória da graça: «Deus, nosso Senhor, quis dar a sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência. Este encontro muda também a sua hierarquia de valores e prepara-o para a vocação apostólica: o que antes me parecera amargo, converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo» (T 3).


Cristo revelou-se-lhe no pobre mais pobre da Idade Média: o leproso. A partir deste momento irá com alegria encontrar-se com Ele nos «irmãos cristãos», como gostava de chamar a estas figuras palpáveis do Senhor paciente. Durante este período de tempo o sofrimento interior foi uma constante, o que é natural em quem muda por completo o rumo da vida. Francisco depois de descobrir o Cristo nos pobres está preparado para o encontrar como irmão na imagem do Crucifixo de S. Damião.

 

 

4.3. A ordem do Crucifixo de S. Damião

 

O Senhor amadureceu o ânimo de Francisco tão profundamente que o fez descobrir Cristo nos pobres e aflitos. Em todos os infelizes de qualquer espécie que encontrava pelo caminho, e particularmente nos leprosos, via Cristo desprezado e débil na sua nudez, dobrado sobre a cruz como um leproso. A graça tinha realizado a transformação do seu coração, como testemunha Celano: «Já inteiramente transformado em seu coração e muito próximo de o estar igualmente quanto à maneira de viver…» (2C 10, 3).


Um dia, como fizera tantas vezes, «calhou de passar perto da igreja de S. Damião... Conduzido pelo Espírito, entra nela para orar, prostra-se devoto e suplicante aos pés do Crucifixo» (2C 10, 3-5). Dele recebe uma ordem bem precisa: «Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está quase em ruína» (2C 10, 9).


Ao escutar as palavras do crucifixo que lhe fala como um amigo chamando-o pelo nome, Francisco, pasmado e a tremer, não atina na resposta. A graça divina tinha-o tocado profundamente: «sente-se tocado de modo extraordinário pela graça divina que o torna completamente diferente do que era momentos antes» (2C 10, 6-7).


À voz do crucifixo obedece imediatamente, com prontidão cavaleiresca: «Propõe-se, no entanto, obedecer imediatamente à ordem recebida» (1C 8, 13), e sem conseguir exprimir a transformação que então sentia, vai a Foligno com o cavalo carregado de tecidos e vende-os com o cavalo. De regresso a Assis, dirige-se ao sacerdote de S. Damião e entrega-lhe o dinheiro para reparar a igreja. Um gesto de bom cristão mas Deus pede mais. O sacerdote recusou o dinheiro, mas aceita-o a viver com ele.


É então que se põe a reconstruir com as próprias mãos S. Damião, S. Pedro e Santa Maria dos Anjos. E mais reconstruiria se Deus não se lhe tivesse manifestado de novo mostrando que este era apenas tempo de preparação para uma missão mais ampla na Igreja. Aqui descobre, no dizer de Masseron, a sua "vocação de construtor" que conservará toda a vida, mudando apenas o objecto.


Seguem-se dias trágicos de ruptura com o pai que o persegue e maltrata. Finalmente, vendo que nada consegue, enfurecido, leva o filho a tribunal. Francisco apela para a justiça do bispo pois tinha-se posto sob a sua protecção como penitente ou oblato, libertando-se assim da autoridade civil. Diante do bispo-juiz e da multidão curiosa que ali se tinha juntado, Francisco «atira as roupas para os braços do pai, ficando nu diante de todos» (1C 15, 3-4). É o momento da ruptura com a família que o impede de responder à voz de Deus e da renúncia total aos bens deste mundo. Nu como um verme, sente-se livre, imensamente livre, e sai "a cantar os louvores de Deus" radiante de alegria. Neste momento experimenta verdadeiramente a paternidade divina e exclama: «De agora em diante poderei dizer livremente: "Pai nosso, que estais nos céus". Pedro Bernardone já não é meu pai» (2C 12, 12-13).

 


Vestindo andrajos foge para a floresta. Celano descreve-o ébrio de alegria, saboreando a liberdade que agora experimenta. Ele será de facto, por toda a parte, o cantor da alegria e da vitória de Deus.

 

 

5. "Saí do mundo": Francisco, homem penitencial

 

Já no fim da vida, no seu Testamento, Francisco recorda um acontecimento bem pessoal e decisivo no processo de conversão que o prepara para a descoberta da vocação apostólica. Eis como o resume: «Deus nosso Senhor, quis dar a sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência; porque, quando eu estava em pecados, parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o mesmo Senhor, um dia, me conduziu ao meio deles e com eles usei de misericórdia. E ao afastar-me deles, o que antes me parecera amargo, converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo: e em seguida, passado um pouco de tempo, saí do mundo».


Esta é a experiência pessoal de Francisco do caminho realizado pela graça no seu processo de conversão-vocação. Para ele a conversão não era outra coisa que fazer penitência, isto é, passar da vida em pecados ao fazer penitência ou seja "afastar-se dos pecados".


Deus atrai suavemente. Francisco chega a Cristo através dos pobres, sobretudo os leprosos, a quem reconhece dignidade e vê como irmãos. São eles que o levam a passar da doçura mundana àquela de Deus, numa completa inversão de valores. Deus vai recebendo na mente e coração de Francisco um rosto mais familiar: Cristo.


Seja qual for a interpretação dada à conversão de Francisco pelos biógrafos franciscanos mais importantes, o certo é que aos 25 anos, entre 1204 e 1208, ela se manifesta em comportamentos novos onde é evidente a iniciativa de Deus. Ele sente-se diferente e os outros também o sentem diferente. Celano diz-nos que as pessoas o viam como «um homem do outro mundo» (1C 36,16).


Francisco escolheu viver a pobreza e humildade no meio dos pobres, dos fracos e doentes como o próprio Cristo viveu. Para ele "sair do mundo" é a separação dos valores terrenos: a carne, o dinheiro, a própria vontade e também a ciência. Assim, livre de tudo, está em condições de se dedicar ao absoluto de Deus em Jesus Cristo.

 

 

6. A descoberta da vocação apostólica

 

Após cerca de três anos de espera e busca penitencial a reconstruir igrejas, pobremente vestido, a mendigar de porta em porta e por muitos considerado um louco, surge o terceiro e definitivo estádio da sua conversão: a descoberta do Evangelho, da forma de vida, a descoberta da vocação apostólica.
Francisco depois de percorrer etapas sucessivas em busca do rumo a dar à vida encontra finalmente o caminho: é o encontro com Cristo na Sua Palavra, o Evangelho. Para aqui chegar viveu um longo período de preparação pela oração, na solidão, fazendo dos bosques, cavernas e pequenas igrejinhas solitárias o lugar privilegiado de encontro com Deus. Sente-se só, recusado pelos familiares e amigos: um "louco" aos olhos de todos. Oficialmente alistado nos penitentes e trajando como eles, não quis integrar-se em nenhum dos grupos existentes, com um género de vida próprio e sob a orientação de algum sacerdote ou junto de algum mosteiro. Assim viveu mais ou menos dois anos e meio de grande sofrimento interior exigido pela radical mudança de vida. Ainda não via claro mas abandonava-se à acção divina. Deus é o único guia como afirma no Testamento: «o Altíssimo me revelou» (T 14).

 


Em 1208 ou 1209, Franciscisco obtém a resposta definitiva ao escutar o Evangelho na Porciúncola, como relata Celano: «no terceiro ano da sua conversão… um dia, ao ouvir nesta mesma igreja a passagem do Evangelho, que refere ter o Senhor enviado os discípulos a pregar» (1C 22, 1-2). Depois de ter ouvido o Evangelho e pedir explicação ao sacerdote exclama cheio de alegria: «Isto mesmo eu quero, isto peço, isto anseio poder realizar com todo o meu coração» (1C 22, 3).


Tudo se torna Claro para Francisco ao ouvir o Evangelho da missão em que Jesus envia os seus discípulos a anunciar o Reino com a mansidão de cordeiros, sem provisões para o caminho, sem bolsa, levando a saudação da paz, comendo de tudo o que lhes puserem diante, curando os enfermos... (Lc 10, 1-9 e paralelos). Imediatamente abandona a veste de peregrino que até então usava e veste uma túnica simples por ele próprio idealizada, cingida com uma corda e pés descalços como Jesus e os Apóstolos.


É no encontro com Cristo no Evangelho do envio dos discípulos em missão que encontramos os alicerces deste futuro edifício que desafia os séculos, apaixona homens de todos os tempos, credos e confissões religiosas e faz de Francisco o "irmão universal", um modelo querido, respeitado e amado.

 

 

7. Francisco vive, interpela e anuncia

 

Francisco, sempre atento à Palavra de Deus, nela encontra a resposta para as suas inquietações de jovem convertido. O encontro com o Evangelho da missão marcou-o de tal modo que, daqui em diante, terá o Evangelho como forma de vida, num esforço constante para o pôr em prática. Faz-se um contemplador assíduo do Evangelho mas considera-o letra morta se não se traduz na vida. Porém, não se contenta com vivê-lo: «com grande fervor e júbilo começou a pregar a penitência» (1C 23, 1). Tinha finalmente encontrado o caminho, o sentido da vida a viver e a partilhar. Em breve o seu estilo de vida começa a cativar tal era a transformação nele operada. Aos poucos vão-se-lhe juntando seguidores e ele que não pensava senão numa vida de maior perfeição para si próprio «converte-se em testemunho e mensagem» (L. Iriarte). E aos poucos alguns começam a ter em Francisco a sua regra de vida. Renunciam a toda a propriedade e os que possuíam bens distribuíam-nos pelos pobres. Eram pregadores errantes, sem lar nem lugar, possuindo apenas o vestuário miserável que traziam vestido. Ganhavam o sustento trabalhando em serviços humildes e, quando o fruto do trabalho não era suficiente, pediam esmola. Alojavam-se nas grutas, nas cabanas feitas de ramos de árvores, nas leprosarias e tratavam dos leprosos. Nas aldeias pediam hospitalidade; quando esta lhes era recusada procuravam uma gruta, um forno, um pórtico de igreja ou uma leprosaria para passar a noite.

 

 

8. A aprovação da Regra

 

Francisco está plenamente consciente de que o Senhor lhe "revelou" o caminho a seguir, a vida a viver, segundo a forma do santo Evangelho (T 14). Para melhor viver o Evangelho «escreveu uma norma de vida ou Regra… Isto feito, dirigiu-se a Roma com todos os irmãos já mencionados, na ardente esperança de que o senhor papa Inocêncio III se dignaria confirmar-lhe o que havia escrito» (1C 32,1 e 3). Celano diz que, para além de extractos do Evangelho, continha algumas normas indispensáveis à vida comum: «Acrescentou, contudo, um número restrito de directivas indispensáveis e urgentes para um bom andamento da vida comum» (1C 32,7-8).

 

 

9. Francisco pede aprovação à Igreja

 

 

Francisco e os seus onze irmãos deslocam-se a Roma para pedir ao Papa a aprovação da forma de vida e regra. Neste percurso, fiel à revelação de Deus, defende o seu projecto de vida diante do bispo Guido e do cardeal de João de S. Paulo que o tentam convencer a assumir uma das regras já existentes. Agora terá de enfrentar a prudência da Cúria romana que os olhava com desconfiança pois tinha já a experiência negativa de outros movimentos. Mais ainda porque o projecto de Francisco «parecia aos olhos de todos uma realização impossível» (2C 16,4). Também o Papa Inocêncio III via o objectivo a que se propunham como excedendo em muito as forças humanas mas, «como homem de grande prudência» (2C 16,5), «conhecido e ponderado cuidadosamente o desejo destes homens, deu o Pontífice o seu assentimento à petição e mandou conferir-lhe a necessária legalidade» (1C 33,23-24).


 Inocêncio III, em 1209, toma uma atitude prudente, autoriza a pregação penitencial e espera os frutos desta Fraternidade. A aprovação da Regra oficial, bulada, acontecerá apenas em 1223.

 

 

10. A vida apostólica franciscana

 

Francisco de Assis é o iniciador de uma era nova na vida consagrada: um religioso com vocação essencialmente apostólica. No seu tempo surgiam movimentos, a maioria de leigos, que procuravam viver uma vida igual à dos Apóstolos. Também eles partiam por aldeias e cidades anunciando o Evangelho como pregadores itinerantes, vivendo em extrema pobreza, pondo em prática o Evangelho da missão e desejavam regressar às fontes do cristianismo, mas frequentemente em confronto com a hierarquia da Igreja. O movimento franciscano, exteriormente semelhante a muitos movimentos apostólicos do tempo, tem uma característica fundamental que o distingue: Francisco quer o regresso à vida evangélica mas dentro da Igreja, em obediência total à Igreja. E assim exorta os seus frades: «Todos os irmãos sejam católicos, vivam e falem como católicos» (1R 19,1). Ele mesmo se dedica à actividade apostólica, mas em obediência e submissão à Igreja, atitude que exige de seus frades: «Nenhum dos irmãos pregue contra a forma e doutrina da santa Igreja Romana» (2C 17,9). Um ofício composto em honra de Francisco qualifica-o de vir catholicus et totus apostolicus.

 

A vida dos Frades Menores é vida segundo o Evangelho. O discurso da missão dos Doze em Mt 10, 1-5 ou dos setenta e dois discípulos em Lc 10, 1-16 é o ponto de partida e o fio condutor da Regra franciscana, desde o “Propositum vitae” de 1209 que se vai enriquecendo até à Regra não Bulada de 1221 e à Regra Bulada de 1223.

 

 

11. As formas de apostolado franciscano

 

A importância dada ao Evangelho do envio dos discípulos em missão informa a vida da fraternidade franciscana e constitui a sua identidade: a pregação itinerante, a proibição do uso do dinheiro, as restrições nas habitações e no vestir e a confiança absoluta na Providência divina.


Através de dados históricos não é possível determinar a natureza de uma actividade pastoral propriamente franciscana. Ela era condicionada pelas circunstâncias do tempo e lugar a que os Irmãos Menores deviam estar atentos pelo que «não se pode indicar uma forma de actividade apostólica genuinamente franciscana» (K. Esser). «A razão de ser da Ordem Franciscana não é uma determinada obra ou devoção ou forma de apostolado, mas uma “forma de vida”» (C. Koser). Efectivamente, «Francisco não fundou uma Ordem em vista de um apostolado específico, nem para executar uma determinada tarefa, nem para cumprir uma particular missão ou actividade dentro da Igreja» (C. Teixeira), como acontece com outras fundações. Francisco tem consciência de ter sido chamado a “viver segundo a forma do santo Evangelho”, conforme o Senhor lhe revelou. «O carisma franciscano, portanto, não está orientado para uma actividade, mas se constitui essencialmente como um viver […]. Viver segundo a forma do santo Evangelho constitui deste modo o apostolado ou missão fundamental do Frade Menor dentro da Igreja» (C. Teixeira). A vida dos Irmãos Menores caracteriza-se fundamentalmente como “vida apostólica” e não como “acção apostólica”. O seu viver é um apostolado.


Mesmo não se caracterizando por uma actividade apostólica específica, os frades estavam disponíveis e abertos para as diversas formas de apostolado na Igreja: a pregação, a ajuda na cura das almas, o cuidado dos leprosos, o trabalho no campo com os agricultores, etc. Atendendo às circunstâncias do tempo e às necessidades da Igreja, de entre as várias formas de apostolado, a pregação é a actividade apostólica principal e, sem dúvida, uma característica do início da Ordem. Porém, toda a vida deve ser apostolado.


 Na Regra bulada, ao descrever o modo de os irmãos irem pelo mundo, Francisco define assim Irmão Menor: «Aconselho, admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo a todos os meus irmãos que, quando vão pelo mundo, não litiguem, nem questionem, nem censurem os demais; mas sejam mansos, pacíficos e modestos, sossegados e humildes, e a todos falem honestamente, como convém» (2R 3,10-11). O frade edifica os outros com o seu exemplo. O apostolado para Francisco é sobretudo uma vida formada e informada pelo Evangelho.


«Francisco não conhece actividades apostólicas mais ou menos isoladas do resto da vida dos Frades Menores. A vida dá o testemunho do exemplo que a pregação acompanha e confirma» (K. Esser). Os frades devem pregar mais e, antes de tudo, com o exemplo. Não pode, contudo, faltar a dimensão interior, «o espírito da santa oração e devoção, ao qual todas as demais coisas temporais devem servir» (2R 5,2).


Outra característica do apostolado franciscano é a menoridade: «sejam menores e sujeitos aos demais» (1R 7,2). Os Frades Menores devem estar ao serviço de todos os homens, mas os pobres e humildes devem ter um lugar privilegiado e ser objecto da sua especial atenção: «E devem alegrar-se quando se encontram entre a gente vulgar e desprezível, entre os pobres e os fracos, os doentes e os leprosos e os mendigos dos caminhos» (1R 9,2).


Nunca devem procurar actividades tendo em vista a recompensa material, o louvor ou reconhecimento, nem sequer com o objectivo de ganharem mais mérito para o céu: «E possam receber pelo seu trabalho tudo o que lhes é necessário, excepto pecúnia. E quando a necessidade exigir, vão pedir esmola» (1R 7,7-9).


A quarta característica do apostolado franciscano deriva do facto de Francisco querer que a sua Ordem fosse uma fraternidade: ser irmãos de todos é fundamental. Por isso a todos acolhe, a todos ama, de todos se preocupa: «E todo aquele que os procure, amigo ou inimigo, ladrão ou salteador, seja cortesmente recebido» (1R 7,14).


Em síntese, podemos com Esser, apresentar quatro características fundamentais do apostolado no espírito de S. Francisco, sempre inserido em toda a vita minorum fratrum. A primeira é o espírito de verdadeira liberdade, aberto a todas as necessidades da Igreja.


A segunda é a relação vida-apostolado. O apostolado dos Frades Menores tem de estar em estreita relação com a vida. Eis como Francisco a define: «Louvai-o e exaltai-o por meio das vossas obras; pois para isso vos enviou ao mundo: para que, por palavras e obras, deis testemunho da sua voz» (CO 8-9).


A terceira é a menoridade. O apostolado deve ser vivido na menoridade e humildade, como servos e instrumentos nas mãos de Deus: «E não porfiem entre si nem com outros, mas sempre seja sua resposta humilde, com dizer: Somos servos inúteis» (1R 11,3).


A quarta é a caridade fraterna. Acima de tudo deve estar o espírito da fraterna caridade que tudo deve penetrar e vivificar num profundo respeito por cada homem, rico ou pobre, crente ou descrente. Todos são irmãos. Só neste espírito o apóstolo franciscano é amigo de Cristo. E é-o, para Francisco, se ama as almas que Ele amou (cf. 2C 172,8).

 

Quais as ocupações diárias? «Durante o dia, os que sabiam algum ofício trabalhavam com suas próprias mãos, ou assistiam aos leprosos, a todos servindo com dedicação e humildade. Ocupações que pudessem ser motivo de escândalo eram recusadas, pelo que se entregavam somente a trabalhos honestos e úteis, dando exemplo de humildade e de paciência a quantos com eles tratavam» (1C 39,18-23).


Ocupavam-se, portanto, no trabalho manual, nos ofícios que cada um exercia antes de entrar na Fraternidade, dando particular atenção aos leprosos (cf. 1C 39), característica constante ao longo da história dos Menores.

 

A mendicância. Um dos meios de sustento, para além do fruto do trabalho, era a mendicância como presença menorítica.

 

A pobreza. A pobreza é vista como libertadora para a vida apostólica. «Francisco não queria ter propriedade sobre coisa alguma, para tudo possuir plenamente no Senhor» (1C 44,13-14).

 

 As moradas provisórias e a itinerância. Dado o carácter itinerante da sua vida apostólica não possuíam moradas fixas porque a isso obrigava a pregação. Por outro lado, no pensamento de Francisco, as moradas provisórias eram concebidas como permitindo e facilitando a disponibilidade apostólica e deviam ser pobres: «Ensinava os seus irmãos a construírem habitações pequenas e pobres, de madeira e não de pedra, choupanas diríamos, de aspecto rústico e precário» (2C 56, 3-4).


Sempre e em qualquer circunstância os irmãos devem guardar a pobreza e sentir-se peregrinos e estrangeiros. Por isso no Testamento lhes diz: «Acautelem-se os irmãos de receber, por qualquer modo, igrejas, pobrezinhas moradas ou outra qualquer coisa que para eles seja edificada, se não forem conformes à santa pobreza que na Regra prometemos; e nelas se hospedem sempre como peregrinos e estrangeiros» (T 24).

 

 

Os Franciscanos: uma resposta nova a novos problemas

 

 

No dealbar do século XIII a estrutura da sociedade feudal europeia entra em declínio, dando origem às comunas, a novas cidades e nações, a uma nova classe social de artesãos e comerciantes. A estabilidade à volta da terra vai dando lugar à mobilidade e às trocas comerciais. As comunas, ao mesmo tempo que fugiam à hierarquia feudal, escapavam também à influência do monaquismo que tinha sido a grande força civilizadora e evangelizadora da sociedade europeia da alta Idade Média. As abadias tornavam-se agora inacessíveis e distantes do povo. A vida cristã tinha decaído extraordinariamente. Neste contexto criam-se novas exigências religiosas, novos problemas se colocam à Igreja e exigem respostas novas. Por toda a parte, dentro das formas de vida religiosa existentes e entre os leigos, surgem reformadores. Os movimentos evangélicos laicais proliferam apregoando o regresso ao Evangelho mas quase sempre contestando e recusando a Igreja oficial tornando-se rapidamente movimentos heterodoxos e heréticos.


Francisco, a quem Deus "revelou" que devia viver segundo a forma do santo Evangelho, tenta dar resposta a esta sociedade em profunda mutação e secularizada: «Todas as suas palavras e acções têm, por assim dizer, um perfume divino» (2C 26, 5). Atento como era aos sinais do seu tempo soube aproximar Cristo e o Evangelho dos homens e estes de Deus. Ele foi um verdadeiro apóstolo, «um espelho exemplaríssimo da santidade do Senhor e imagem da sua perfeição» (2C 26, 4).

 

 

 

Ajuda-nos, Francisco de Assis…

 

«Francisco, tu que tanto aproximaste Cristo da tua época,
ajuda-nos a aproximar Cristo da nossa época
e dos nossos difíceis e críticos tempos.
Ajuda-nos a aproximar a Igreja e o Mundo de hoje a Cristo.
Faz-nos dignos, Senhor, de servir os nossos irmãos.
Dá-lhes através das nossas mãos,
não só o pão de cada dia,
mas também o nosso amor misericordioso,
à imagem do Teu.
Tu que transportaste no teu coração
as vicissitudes dos teus contemporâneos,
ajuda-nos, com o coração unido ao do Redentor,
a abraçar as inquietações dos homens nossos contemporâneos:
os difíceis problemas sociais, económicos, políticos,
os problemas da cultura e da civilização contemporânea;
todas as angústias do homem de hoje:
suas dúvidas e negações, suas desorientações e tensões,
seus complexos e inquietações.
Ajuda-nos a traduzir tudo isto em simples e fecunda linguagem do Evangelho.
Ajuda-nos a resolver tudo em chave evangélica,
para que o próprio Cristo possa ser caminho-verdade-vida
para os homens do nosso tempo».

 (João Paulo II, Assis, 5 de Novembro de 1978)

 

Fr. Daniel Teixeira, OFM